Saque de contas do FGTS pode aumentar a popularidade de Bolsonaro?

Depois de pouco mais de seis meses no Palácio do Planalto, o governo do presidente Jair Bolsonaro (PSL) vai anunciar, nesta quarta-feira (24), a primeira medida que, de fato, põe dinheiro no bolso dos trabalhadores brasileiros. Trata-se da liberação de recursos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) – uma tentativa de estimular o consumo e dar fôlego à combalida economia do país.

Os termos da liberação dos saques ainda são nebulosos: não há, ainda, informação oficial sobre quanto o contribuinte poderá retirar, nem quando ou em que condições. Além disso, especialistas alertam que, mesmo que sejam positivos para o consumo, os efeitos dos saques na economia devem ser pontuais.

Na visão da corretora XP Investimentos o cenário é ainda menos animador. Relatório divulgado pela empresa afirma que o governo “se complica” com o anúncio, já que, com regras muito restritivas, acaba blindando setores escolhidos e pode não atingir os objetivos desejados, diz o MSN.

As dúvidas sobre a efetividade da medida não se limitam à economia. De acordo com cientistas políticos ouvidos pela Gazeta do Povo, a popularidade do presidente não deve ter significativa melhora a partir da liberação dos recursos.

Avaliação do presidente está em queda

Desde que tomou posse, em janeiro, Bolsonaro tem visto sua aprovação cair – ou não melhorar – nas pesquisas de opinião pública. Dados levantados pelo Ibope Inteligência*, a pedido da Confederação Nacional da Indústria (CNI), mostram que a quantidade de cidadãos que consideram a administração do presidente como ruim ou péssima subiu de 27% em abril para 32% em junho. Ao mesmo tempo, os que consideram o governo ótimo ou bom caíram de 35% no começo do ano para 32% no último levantamento.

Já nas pesquisas realizadas pelo Datafolha**, a tendência foi de estabilidade, já que os números oscilaram dentro da margem de erro. No último levantamento divulgado pelo instituto, no começo de julho, 33% avaliaram o presidente como ruim ou péssimo – 3 pontos percentuais a mais do que na primeira pesquisa, realizada em abril.

A confiança dos consumidores na economia, medida pelo Ibope Inteligência também a pedido da CNI***, é outro indicador que não vai bem. O Índice Nacional de Expectativa do Consumidor (INEC), que varia de zero a 100, caiu de 48,4 pontos em abril para 47 pontos em junho, na segunda queda consecutiva em 2019.

Alívio é pontual

Na opinião do cientista político Leonardo Barreto, é justamente esse cenário de insegurança que deve limitar os efeitos do anúncio dos saques do FGTS na popularidade do presidente.

“A medida traz algum alívio, mas é uma questão pontual que não tem fôlego para criar um movimento de aprovação do governo. O trabalhador vai pegar o dinheiro, pagar uma dívida ou resolver alguma coisa, mas isso não sinaliza nada no longo prazo. Não ataca a insegurança em relação à renda ou às perspectivas profissionais”, explica Barreto.

Outro fator, para o especialista, se relaciona à própria natureza do FGTS: os contribuintes apenas terão acesso a um dinheiro que já é deles, e que cairia na conta em algum momento da vida. “Além disso, esse impacto deve ser reduzido porque o ex-presidente Michel Temer (MDB) já tomou medida semelhante”, opina o cientista político.

As idas e vindas das decisões

Uma possível melhora na avaliação de Bolsonaro, em decorrência da liberação do FGTS, também pode ser prejudicada por causa da avalanche de polêmicas envolvendo o próprio presidente e, até mesmo, das incertezas que rondam o anúncio.

No caso dos saques do dinheiro do Fundo de Garantia, ao menos três informações distintas já foram divulgadas na imprensa. Primeiro, o governo estudava liberar R$ 42 bilhões. Depois, a previsão foi reduzida para R$ 30 bilhões. Agora, a informação é de que os saques serão limitados a R$ 500 em 2019, podendo aumentar nos próximos anos.

As confusões adiaram o anúncio, inicialmente previsto para o último dia 18. No final de semana, Bolsonaro disse à imprensa que faltavam apenas “pequenos acertos”.

“O governo apresenta uma dificuldade de comunicação, sem planejar os anúncios estrategicamente. Se ainda não foram definidos os critérios, comentários públicos deveriam ser feitos somente depois, quando tudo já estivesse formatado”, diz o cientista político Doacir Quadros.

24/07/2019